23 Junho, 2007

Rostos
António-Pedro Vasconcelos

Na altura em que esta crónica sair, já eu terei concluído três dias dos 40 de que disponho para filmar Call Girl.
E se falo no filme pela segunda vez é por duas razões. A primeira é porque, a partir da próxima semana, esta coluna passará a ser um diário das filmagens: uma oportunidade de ir partilhando com os leitores os mistérios, os problemas, as fases de fabrico de um filme, uma tarefa criativa mas que se rodeia dos processos próprios
de qualquer produto industrial: planificação e divisão do trabalho, dependência do profissionalismo e da competência de uma vasta equipa, calendário e orçamento rigorosos, horários implacáveis.

Mas a segunda razão é para falar do último filme de Bruno de Almeida, Lovebirds, que abriu na terça-feira o Lisbon Village Festival, um festival dedicado ao cinema digital.

Ao longo da História do Cinema, uma História onde a componente técnica e industrial esteve sempre presente, o enorme artificialismo das filmagens, condicionado pelas limitações técnicas das películas e dos equipamentos, levou ciclicamente a reacções de cineastas impacientes, que, movidos pela necessidade de romper com o conformismo vigente, reinventaram o cinema. Foi assim com o neo-realismo italiano a seguir à II Guerra; e,
nos finais dos anos 50, com a Nouvelle Vague francesa e com o cinema de John Cassavetes.

E é Cassavetes que nos vem à cabeça quando vemos este opus 5 do Bruno.

Sem paciência para esperar pelos absurdos concursos do ICA a que se condenou o cinema português, o Bruno pegou nos amigos e numa câmara digital e decidiu cruzar seis pequenas histórias passadas em Lisboa, com personagens portuguesas e americanas (além de um taxista de leste, o notável Dmitry Bogomolov), histórias que falam de derrotas e frustrações, de solidão e de fracassos, filmadas, com uma infinita ternura e compaixão, entre Alfama e o Bairro Alto, com o Tejo por fundo.

Faces era o nome de um dos primeiros filmes de Cassavetes. E o que seduz neste filme ‘pobre’ e ‘amador’ (como eram ‘pobres’ e ‘amadores’ os de Rossellini e Cassavetes), é precisamente o desejo de filmar os rostos dos actores, rostos de seres perdidos numa cidade melancólica e sensual. Rostos de grandes actores como Joaquim de Almeida, Rogério Samora ou Michael Imperioli, por exemplo, num registo de comédia italiana, digna de Dino Risi. Mas Lovebirds vale sobretudo por nos ter mostrado o rosto engelhado de Fernando Lopes, que fala do boxe, do cinema e da vida num registo patético inesquecível. E de Ana Padrão, o mais belo rosto do cinema português depois de Amália Rodrigues, com a vantagem de ser uma actriz que nos corta a respiração. O que é importante num filme? Rostos e olhares. Emoções e sentimentos. Nas vésperas de começar um filme ‘normal’, fez-me bem que o Bruno me relembrasse esta grande verdade.


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