Março 2008

THE LOVEBIRDS

Vencedor do Prémio da Crítica no Fantasporto, este filme deixou-me francamente esperançoso quanto ao futuro do cinema português. A sua sinceridade estética e narrativa é um autêntico oásis no panorama nacional. O facto do seu realizador, ter estado radicado nos EUA, não é coincidência. O pragmatismo da sua abordagem, enriquece as cenas, e dá o ênfase onde ele deve estar neste tipo de cinema, nos actores e na história. Nota-se que a câmara de Bruno de Almeida gosta dos seus actores. Quer seja um Michael Imperioli, um Joaquim de Almeida, um Rogério Samora, uma Ana Padrão, ou esse grande, grande senhor chamado Fernando Lopes.


Num estilo de narrativa em mosaico, muito ao jeito de Magnólia ou de Nashville, The Lovebirds, conta várias histórias, passadas na mesma noite e na mesma cidade, Lisboa. O amor e as suas várias manifestações, é o elo que une as histórias. Seja no caso de um viúvo americano obcecado com um uma mulher que lhe relembra a sua falecida esposa. Ou no taxista que na luta contra a solidão, comete um assassínio para mais tarde atingir uma inesperada redenção. Ou nos dois ladrões que têm de encarar os limites da sua amizade. Ou naquele arqueólogo que teima em não sair do buraco onde se enfiou. Ou no piloto que devido às agruras de uma relação extraconjugal, acaba em cuecas desabafando com o barman do hotel. E que dizer do segmento francamente tocante em que Fernando Lopes interpreta um cineasta (no fundo ele próprio), que ao realizar o seu último filme (um filme sobre boxe numa alusão a Belarmino), tem de encarar o final da sua carreira. A cumplicidade que emana da relação entre Lopes e Rogério Samora, ou o comovente discurso final da "beauty in defeat", são dos momentos mais sublimes a que pude assistir no cinema português.

Bruno de Almeida, gosta dos seus personagens. A sua câmara é justa e nunca os condena. E filma tudo isto em digital e à noite. Munido de somente 80 mil euros de orçamento (o normal numa produção média é de 500 mil), com apenas 15 dias de rodagem (o standard costuma ser de 30) e com a ajuda e a disponibilidade dos seus actores (que trabalharam de graça), os resultados não podiam ser mais surpreendentemente positivos. O estilo guerrilha inerente a esta abordagem digital possibilitou-lhe uma liberdade de encenação, em que as ruas de Lisboa são aproveitadas como até agora nunca tinham sido. Salvo as devidas distâncias, um filme que me veio à cabeça recorrentemente, foi o magnífico Colateral (Michael Mann). Também aí as câmaras digitais (a superior Viper Thompson) tinham um papel fulcral no registo de uma noite numa grande cidade. Ou seja, Bruno de Almeida atento às possibilidades (económicas e estéticas) do vídeo, revela-se, além de um cinéfilo atento ao que se passa à sua volta, um pioneiro das tecnologias digitais ao serviço do cinema português. E em The Lovebirds, o objectivo não é a busca da imagem perfeita, mas sim a busca do momento mais autêntico e genuíno. É precisamente essa autenticidade que vem ao de cima, no seu evidente talento na direcção de actores. A espontaneidade conseguida através do improviso, revela outra lição bem estudada. Neste caso com o senhor John Cassavettes (outro cineasta das ruas e dos actores). No capítulo das representações, há que destacar além do já referido Fernando Lopes, o seguro Michael Imperioli, a luminosa Ana Padrão e o hilariante Joaquim de Almeida.

Em suma, um filme sincero e despretensioso, mas que ao mesmo tempo traz ventos de mudança ao cinema português. E como Bruno de Almeida disse, para um bom filme ser possível, não é necessário os fundos do ICA. Basta, uma câmara, bons actores, um argumento bem trabalhado e muita vontade de fazer cinema. The Lovebirds vem dar-lhe toda a razão.

Luís Alves
Copyrigth Red Carpet