ÍPSILON, 14 Março 2008 |
| O cinema faz-se de noite Bruno de Almeida já foi português em Nova Iorque, agora é um nova-iorquino em Lisboa. Que entra pela primeira vez no seu cinema em "The Lovebirds", filme nocturno. E o mais livre de um realizador mesmo independente. |
| Kathleen Gomes |
| Faltam três minutos para o comboio partir em direcção ao Porto e Bruno de Almeida acaba de descobrir que não se pode fumar a bordo. - Não vou. Os filmes italianos que ele tanto admira abundam em situações destas - os de Fellini, em particular: um homem fora de controlo, um cortejo humano atrás dele para o segurar. Por vezes a reacção da personagem parece ter menos a ver com a tragédia que lhe aconteceu do que com uma vontade de pôr à prova a rede humana à sua volta. O ponteiro do relógio de Santa Apolónia já deve ter avançado, e Bruno ainda não meteu o pé dentro do comboio. O plano - segui-lo até ao Fantasporto, que vai mostrar "The Lovebirds" nessa noite - pode acabar antes de começar. |
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| - Três horas sem fumar? Não consigo. I"m not going. Os três actores de "The Lovebirds" que o acompanham tentam convencê-lo a subir. Rapidamente desistem do bom senso - o humor é que o levará. Isso e Obama, o que neste momento também é caso para rir: "Não se esqueça de contribuir para a campanha", diz ao funcionário da CP que está à porta da carruagem. A viagem coincide com o dia em que o seu rosto surge na primeira página do PÚBLICO, num (falso) crachá da campanha do candidato democrata. Bruno de Almeida, um português com 22 anos de Nova Iorque, acredita que Obama vai mudar o mundo, mesmo que agora mais pareça querer divertir-se com isso, convertendo-se numa caricatura evangelista de si mesmo. Já dentro do comboio, o nova-iorquino John Frey, actor e co-argumentista do filme, exibe um guia do Porto emprestado por um amigo, e sorri: "It"s got all the places where we can smoke." Bruno de Almeida fala de Nova Iorque no passado, não porque regressou a Lisboa há dois anos mas porque a cidade já não é o que era. Ele estava lá quando Rudolph Giuliani foi "mayor" - a proibição de fumar nos lugares públicos ainda era uma miragem na Europa quando já não se podia acender um cigarro nas esplanadas nova-iorquinas. Giuliani "limpou" Nova Iorque de outras maneiras: erradicou a má fama de Times Square, esconjurando prostitutas, tornando-a respeitável e, como se diz na primeira longa de Bruno de Almeida, "Em Fuga" (1999), o sítio mais seguro de Nova Iorque. "Nova Iorque é a cidade onde vivi mais tempo, onde me apaixonei mais vezes. Conheço a cidade melhor que Lisboa. Era um sítio altamente criativo, onde o artista, o boémio, era o rei da cidade. Lembro-me de chegar em 1985, em Março, e a primeira coisa que vi foi um comboio [do metro] com um graffito enorme do Lee Quiñones ["street artist" que transitou para a pintura, e consequentemente para o museu]. Um comboio pintado de fresco que durou umas horas...! Essa ideia de arte de cidade... Pá, aquilo estava por todo o lado, havia música na rua, havia o Keith Haring a fazer pinturas nas paredes. Eu via o Keith Haring tipo Bairro Alto, estava na noite. O Basquiat, o John Lurie, o John Zorn... Esse ambiente todo que era o chamado Lower East Side e agora não existe... Tive uma sorte em ver aquilo." Lisboa, depois de Nova Iorque Chegou a Nova Iorque músico, voltou realizador. Resumidamente: deixou-se contaminar pela cena artística, leu Marcel Duchamp como se fossem as sagradas escrituras e passou a acreditar em "ready-mades" em vez de notas. Descobriu o cinema experimental de Jonas Mekas, a obra de Cassavetes. "Ia ao cinema todos os dias, havia aquele circuito dos cinemas de "quartier" [bairro] - isso foi antes do vídeo." Essa Nova Iorque já não existe. "Deixou de ser um sítio onde os artistas podem viver e trabalhar porque é demasiado cara. Não está nada de novo a acontecer." Muita gente foi para Berlim e Seattle. "E Nova Iorque era a cidade onde toda a gente era excêntrica, extravagante e, de repente, é tudo banal. Se encontrar uma cidade onde isso existe... Acho que Lisboa tem isso, sinto uma força criativa. Mas aqui és mais tu que crias a tua cena. Nova Iorque, não - aquilo afecta-te logo." Lisboa entra pela primeira vez no cinema de Bruno em "The Lovebirds". Seis histórias paralelas, uma ideia de errância, uma geografia definida, uma Lisboa nocturna, antiga, que também é símbolo de qualquer coisa - de resiliência. "The Lovebirds" vai às entranhas, escancara a ruína, mas é para dizer: ainda aqui estamos. "Sinto um enamoramento pela cidade. Não gosto muito de Lisboa de dia. Mas tem uma vida muito própria à noite." "The Lovebirds" dura o tempo de uma noite: começa ao final do dia e termina ao amanhecer. É também o horário dele, Bruno. Vinte e dois anos a dormir noutro fuso horário não é hábito que se perca facilmente. Além do mais, ainda não acabou com Nova Iorque (não é à toa que se tem uma discografia ilimitada de Frank Sinatra): continua a ter lá a sua estrutura de produção, a Arco Films, fundada em 1990, continua a pagar impostos, e, claro, tem lá amigos. Não queremos acreditar nos nossos ouvidos: "Lisboa é uma cidade deserta à noite mas tem blocos de actividade. É uma cidade que não dorme, muito mais do que Nova Iorque." O cinema faz-se de noite, dirá. É o turno em que lhe é mais fácil detectar a especificidade de Lisboa. "Taxistas, putas, porteiros, polícias nocturnos, travestis, alcoólicos - a fauna nocturna lisboeta é a fauna nocturna lisboeta, não encontras um taxista assim noutro sítio. Gosto de me movimentar nesse meio. Uma vez encontrei um taxista que só fazia o turno da noite, um daqueles mal-dispostos, e perguntei-lhe porque é que só guiava de noite. E ele disse: "Gosto de respirar a inteligência das pessoas enquanto elas dormem." The real indie A noite é um vampiro, mas uma câmara, agora, também vinha a calhar - e é de dia. A impertinência tem o seu charme e Bruno está a ter os dividendos disso: há-de fumar os seus cigarros antes de chegar ao Porto. Meia hora de comboio e ele é o tipo mais popular a bordo, um folgazão temerário que cria cumplicidades instantâneas. Não perguntem como: é um zero em comportamento, com uma falta de cerimónia que pode ser intimidante. Meia hora de comboio e já dançou na carruagem-bar, já tentou subornar o "staff" da CP para o deixarem fumar ("E se eu lhe pagar um euro?"), já foi brejeiro, e já conseguiu o que queria (e o que estava longe de imaginar). Um tímido chama-lhe um figo ou um pesadelo, pela mesma razão (embora, em auto-defesa, ele também se diga um tímido). Bruno pisa o risco, é o primeiro a quebrar as regras, e por isso vai onde um tímido jamais poderia - à cabine do maquinista. E a realidade ultrapassa a ficção. O maquinista conta como em dez anos apanhou seis suicidas pela frente. - E qual é a sensação?, pergunta Ana Padrão, actriz de "The Lovebirds". - A gente costuma dizer que só custa o primeiro. Mas custam todos. Bruno de Almeida começa ver que isto dava um filme, sobretudo italiano. "I Vitelloniiiiiii", grita pela janela do comboio, numa referência ao filme de Fellini sobre uma geração perdida, a dele ("Os Inúteis"). E aquele revisor, malicioso e desdentado, podia ser um personagem de Dino Risi, cineasta dilecto. Bruno está deliciado, oferece-lhe um papel num próximo filme. (Mais tarde, já no Porto, garante: "Daqui a uns tempos vais vê-lo num filme meu, não tenhas dúvidas.") - Mas não pago. Bruno de Almeida não pagou aos dois Sopranos que trabalharam em "The Lovebirds", Michael Imperioli e John Ventimiglia, sintoma da fragilidade do seu sistema de produção. "The Lovebirds" é um filme independente, e por uma vez, nos dias que correm, isso não é um repositório de tiques de um estilo "indie", mesmo que a palavra tenha perdido o sentido que tinha. No caso de Bruno de Almeida, ainda é "the real thing": pouco dinheiro e muita vontade de fazer, autonomia criativa e uma família de actores como base de apoio, em busca da diferença. "É fácil fazer um filme: basta uma câmara, uns amigos, um argumento", diz. "The Lovebirds" resulta de uma encomenda do Lisbon Village Festival: Bruno recebeu 80 mil euros, "o dinheiro de uma curta", e fez uma longa. |
| Fernando Lopes, figura tutelar no imaginário cinematográfico de Bruno - "o meu mentor" - e em "The Lovebirds", diz ter "grande admiração pela maneira como ele fez o filme". O autor de "Belarmino" fala da Nouvelle Vague e fala em revolução porque é a prova de que pode haver cinema para além da subsidiodependência. Nesse sentido, Bruno "está fora dos esquemas mentais" da sua geração e da "novíssima geração" - Lopes chega a dizer: "foi um extraterrestre que aterrou aqui" - e os benefícios disso estão à vista. Fernando Lopes deixou-se contagiar: quer rodar assim o seu próximo documentário, para o qual irá contar com a ajuda de Bruno. |
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Vê no gesto de Almeida um certo pragmatismo americano. O realizador de "The Lovebirds" diz que o sistema de financiamento europeu, baseado no apoio estatal, é um luxo invejável, comparado com o que se passa nos EUA. "Um cineasta independente americano não tem apoio nenhum. Não há ICAM, não há Eurimages, nada." Na Europa, defende, "não se põe a questão do cinema independente, é tudo ligeiramente independente." Mas a falta de apoios "não devia ser uma desculpa para não filmar. Se a questão for ter de esperar por um apoio e estar cinco anos sem filmar, prefiro filmar. E tenho a sorte de ter um grupo de actores em que pensam todos assim. A nossa referência é o Cassavetes. Estamos a viver numa época em que está tudo ao dispor: câmaras baratas, pôr o filme na Net... Quando comecei não havia Internet, nem vídeo, era película e era mais difícil. É ridículo fazer cinema como se fazia nos anos 50. Já passámos Godard, já passámos Cassavetes... De certeza que se o Cassavetes estivesse vivo fazia filmes em digital." Depois do tapete Bruno de Almeida está de regresso ao Fantasporto, depois de ter mostrado aqui a sua primeira curta-metragem, "A Dívida", em 1993. "Há 15 anos estive aqui, no meu primeiro festival." Era um filme a preto-e-branco, sob influência - de Cassavetes e da série B - que teve uma carreira meteórica: prémio de melhor curta na Semana da Crítica em Cannes, passagem por 85 festivais. O suficiente para gerar grandes esperanças em relação à sua estreia na longa, que foi turbulenta e só se materializou em 1999, com "Em Fuga". Uma dupla, dois opostos que se atraem e atravessam a noite nova-iorquina. Já se notava, aí, o gosto pela vinheta, pelas histórias-miniatura, mas era um filme pouco autónomo, em que Bruno parecia mais preocupado em exibir um estilo nova-iorquino. Era o filme de um português e era fácil esquecermo-nos disso. Também era algo anacrónico - o gesto de um abraço caloroso na era pós-Tarantino, em que os filmes já não se faziam assim. (Não, Bruno não gosta de Tarantino.) Se hoje faz questão de manter distâncias em relação à indústria, é por causa da experiência de "On The Run". "A produção tomou conta do lado criativo, fui obrigado a fazer escolhas que não queria e o filme foi remontado pelo produtor - 26 cortes, foi-me tirado das mãos. Fiz um filme com o qual não me identifico." Já tinha decidido não olhar mais para trás quando surgiu o digital, digamos que este apenas o ajudou a enterrar a hipótese da indústria. E a começar uma segunda vida. Já tinha uma família - cumplicidades trazidas de "On The Run": Imperioli, Ventimiglia, John Frey, Drena de Niro, filha de Robert, Nick Sandow, e todos eles ressurgem em "The Lovebirds". É esse colectivo que está por trás de "The Collection", uma série de curtas histórias filmadas em Nova Iorque entre 2001 e 2005. Sem imperativos, a não ser um lado laboratorial - filmava-se sem data, aos fins-de-semana, e uma vez terminados os filmes eram disponibilizados na Internet, o que gerava "feedback" imediato. "Uma utopia da distribuição, se quiseres." Um acto libertador: é sobretudo isso que fica depois de ver o conjunto das 24 histórias. Isso e um certo olhar sobre a cidade. Quando concluiu "The Collection", uma amiga disse-lhe: "Isto é o teu filme de despedida de Nova Iorque." "Ela percebeu o que eu não tinha percebido", diz o realizador, 43 anos. Parece improvável que houvesse "The Lovebirds" sem "The Collection". Há um olhar que, à falta de melhor expressão, se diria nostálgico (ou elegíaco), que é comum a ambos. Bruno explica isso melhor do que ninguém: é um olhar que é, ao mesmo tempo, interior e exterior (da mesma forma que não teria rodado um documentário sobre Amália se não tivesse ido para Nova Iorque - se não estivesse de fora a olhar para dentro). "The Lovebirds" parece o seu filme mais genuíno, ou mais livre (documentários à parte), como se tivesse dado a volta ao círculo. E fê-lo em mais do que uma forma: o Fantasporto, o seu primeiro festival, acabará por atribuir-lhe o prémio do júri por "The Lovebirds". No filme, Fernando Lopes interpreta um realizador que está a rodar o seu último filme. O "plateau" é um ringue, pretexto para analogias entre o cinema e o boxe. Numa das cenas mais fundas, um diálogo entre Lopes-realizador e o seu pugilista-winner que Bruno resume como "a espinha do filme", diz-se que é bom saber perder, "there is a sad beauty in defeat". "É uma cena que se não estivesse lá, o filme não existia. Há ali uma coisa que o Lopes diz, que ele pode dizer: que já foi ao tapete. Como cineasta tens de já ter ganho qualquer coisa para poder falar dela. Não acredito que alguém possa falar do que não percebe. Quer dizer, sim, podes fazer uma cena de gangsters, isso é "easy-going" - qualquer pessoa filma duas pistolas e está feito. Agora, fazer uma cena entre duas pessoas, onde estás a falar de uma coisa real... Tens de ganhar o poder de falar disso. Acho que também posso dizer aquilo - talvez não pudesse há 15 anos. Eu também já fui ao tapete." Mas não foi um K.O. Copyright Público 2008 |