| 23 Junho, 2007 |
| Comissões |
| Dois filmes, díspares resultados |
| A prática da encomenda não é usual em Portugal - e, quando ocorre, raras vezes tem resultados não funestos. Esta semana, duas encomendas viram a luz em Lisboa, a primeira feita pela Fundação Calouste Gulbenkian para o seu evento «O Estado do Mundo» (estreia no Grande Auditório da Fundação no passado sábado), a segunda comissionada pelo Village International D - Cinema Festival e estreada na abertura do certame que amanhã encerra. No primeiro caso, um conjunto de curtas-metragens assinadas por cineastas internacionais (Apichatpong Weerasethakul, Vicente Ferraz, Ayisha Abraham, Wang Bing, Chantal Ackerman e o português Pedro Costa) deixou, entre o atónito, o descorçoado e o sonolento, a vasta plateia que se deslocou às alcatifas da Avenida de Berna. |
![]() Michael Imperioli em «The Lovebirds» |
| Com razão: O Estado do Mundo não tem nada de vero para comunicar, nem força, nem vontade, alento ou alma. No segundo, uma narrativa feita de vários fragmentos de histórias - The Lovebirds, de Bruno de Almeida - entusiasmou festivamente o anfiteatro do São Jorge, em noite de «tout Lisbonne». O que eu gosto no filme de Bruno de Almeida é, antes de tudo, a despretensão. Olhando amorosamente vários personagens apenas esboçados em ténues fios de história, filmando Lisboa como nunca ninguém antes - salvo Fernando Lopes, é claro - a olhara (um misto de calor, enamoramento e nostalgia), The Lovebirds gosta dos seus comparsas, nossos próximos e consegue cumpliciar-nos nessa atitude. Estão todos meio perdidos, meio à deriva. Um porque não quer sair de um buraco que cá fora a realidade esmaga-o, outro enrolado numa relação fora do matrimónio (e acaba, seminu, a carpir mágoas com um «barman» de hotel), um terceiro procura, ansiosamente, um contacto humano (e a sua noite de taxista cumpre-se entre um assassínio e um nascimento), outro ainda segue uma mulher pelos becos obscuros para acabar em confidências pela madrugada, outros, finalmente, andam ali, na vida manhosa dos delinquentes, sem eira nem beira, um assalto, um golpe, solidão. E há um cineasta que teima em filmar uma cena de boxe (e o produtor vem-lhe dizer que o dinheiro acabou), uma jovem grávida sem homem que a ampare e mais uma miríade de gente. Nada para salvar o mundo. Calor humano, conivência entre amigos: que bom é ver convocados como actores gente como Michael Imperioli, Joaquim de Almeida, Drena de Niro, Ana Padrão, John Ventimiglia, Rogério Samora, Nick Sandow, Cleia Almeida, Johnny Frey, Fernando Lopes, Marcello Urgeghe, Rui Morisson, Laura Soveral, Ivo Canelas, Dmitri Bogomolov ou Joe Berardo para os quais, evidentemente, não havia orçamento que chegasse para pagar deveras. O improviso é frequente e faz parte do conluio (que bonita a sequência do fim da noite com chouriço assado, a família junta e Imperioli a provar o grande actor que é!). Há uma cena entre Fernando Lopes e Nick Sandow cuja comovência não se há-de esgotar nunca. Tudo é montado, em jeito altmaniano, como uma teia. E estão todos vivos e nós também, já que nos emocionamos e até queríamos mais. Há que estreá-lo nas salas - e depressa. Jorge Leitão Ramos Copyrigth Expresso |