Isto é como uma família cigana
ENTREVISTA de Eurico de Barros

Vocês são amigos desde os anos 90 e fazem filmes juntos desde então, The Lovebirds não é o primeiro. Como se conheceram?

Bruno de Almeida - Eu estava em Nova Iorque em 1995, conhecia o Michael de o ver no teatro e mandei--lhe o argumento do meu filme Em Fuga, mas ele estava ocupado. Então decidi fazer o casting do outro papel, e vi aí uns 200 actores...

John Ventimiglia - 200? Livra!...

BA - ... sim, e não encontrei nenhum que me agradasse. Eram todos bons, alguns tornaram-se actores muito conhecidos, mas não davam para o papel. Os meus directores de casting disseram-me que havia que havia mais dois actores eu tinha que ver, o Nick Sandow e o John Ventimiglia. O Nick não veio e o John foi o último a aparecer, e era o único que não se tinha preparado, não sabia o que estava a ler. Foi óptimo, porque era esse espírito que eu queria para o filme. Fomos almoçar no dia seguinte e disse-lhe que tinha escrito o outro papel com o Michael em mente. Ora o Michael e o John eram amigos...

JV - E quando eu cheguei a casa liguei ao Michael, e disse-lhe que tinha conhecido um realizador que referiu o nome dele para um filme.

Michael Imperioli - Certo.

JV - E o Michael disse-me que se eu ia entrar no filme, então ele entrava também.

BA - Encontrámo-nos num restaurante e bebemos 12 garrafas de vinho branco. Havia uma rapariga que vivia num barco, no cais, e que teve que me levar a casa nessa noite.

MI - Foi nessa noite que formámos o nosso laço de amizade.

BA - E foi uma experiência inesquecível, porque o financiamento não veio logo e ficámos a trabalhar no projecto, a improvisar, e isso. Quando começámos a rodar o Em Fuga, eles já eram donos das personagens, elas tinham vida própria, e nem sequer precisei de os dirigir muito.

Foi o começo de uma amizade que é também criativa, não é?

JV - O Michael e eu conhecemo-nos nas aulas do Lee Strasberg, um ano antes de conhecermos o Bruno, e vimos logo que tínhamos muita coisa em comum. Foi assim que começou.

BA - E eu conheci o Nick Sandow através do John, e já tinha conhecido o Johnny Frey antes. E houve várias coincidências: íamos ao mesmo bar, havia um amigo nosso que tinha um restaurante português que começámos a frequentar. Apareceram actores que tinham sido das turmas de representação deles, e tínhamos todos referências e influências comuns, gostávamos todos dos filmes do John Cassavetes...

JV- ... da mesma música...

MI - Foi uma coisa geracional.

Quando estão a trabalhar todos num filme, a vossa relação torna-se mais profissional ou mantém-se na mesma, descontraída?

MI - As duas coisas.

JV - Sim, ambas.

MI - Já trabalhamos juntos há muitos anos, investimos nisto muito das nossas vidas, e levamos o trabalho muito a sério. Mas também sabemos o que queremos uns dos outros, conhecemo-nos muito bem e isso torna tudo muito mais fácil e agradável.

O Bruno pensou logo no John e no Michael, e nos os outros actores americanos e portugueses, quando o Lisbon Village Festival lhe encomendou The Lovebirds para filme de abertura?

BA - Sim, eu penso sempre neles todos. Encaro esta coisa de fazer cinema como um circo, ou uma família cigana. Eu quero é fazer estes filmes pequenos, trabalhar com os meus amigos e esperar que os filmes se tornem maiores. Mas a base é sempre a mesma e não saberia o que fazer sem eles. Mantém-me honesto e despretensioso.

JV - Nós desenvolvemos uma linguagem própria juntos.

BA -Eu nem sequer os dirijo muito, temos uma atmosfera especial no set, gostamos de estar juntos, rimo-nos, comemos, e tudo isso tem a ver com o cinema que fazemos, que é muito naturalista. Trocamos ideias, há muita improvisação, eles dão sugestões, olho para eles e já sei o que vão fazer.

JV - É uma química, é como uma banda que se junta para tocar. É confortável, é entusiasmante e queremos fazer parte dessa atmosfera.

Sendo uma encomenda de um festival lisboeta, The Lovebirds tinha que se passar em Lisboa, que ser feito em digital, e ter um orçamento curto...

BA - Eu olhei para Lisboa como uma cidade labiríntica, um labirinto emocional. Pensei em seis histórias, o Johnny Frey entrou no projecto e escrevemos as histórias para os actores. Para a do Vincent e da Rosa, seriam o Michael e a Ana Padrão, o John faria a do arqueólogo, etc. E pusemos experiências e emoções pessoais no filme.

JV - Improvisámos muito, mas trabalhámos sempre sobre uma base de argumento. Foi um processo criativo muito aberto.

Já conheciam Lisboa. Como se sentiram agora a filmar cá?

JV - Muito à vontade, logo desde o início. Sinto uma grande ligação a Lisboa, ao ambiente, à sua história.

MI - Só filmei durante um par de dias, mas foi uma das melhores experiências de rodagem que já tive, a trabalhar com os meus bons amigos, numa cidade bestial... foi óptimo.

Como é que o Bruno se lembrou do Fernando Lopes e do Joe Berardo para o filme?

BA - O Fernando é o meu mentor, conheço-o desde miúdo, e foi ele que sugeriu que eu visse A Ultrapassagem,filme que influenciou Em Fuga. Falo muito com ele, gosto da maneira como ele vê o cinema e o mundo. Sempre me influenciou muito e tenho um projecto de documentário sobre ele, Dez Rounds com Fernando Lopes. A cena do Fernando com o Nick Sandow é a espinha dorsal emocional de The Lovebirds. A minha mãe trabalha para o Joe Berardo. Ele é muito divertido e gosto da sua frontalidade. Telefonei-lhe para fazer o produtor do filme que a personagem do Fernando está a rodar. Disse que me dava 15 minutos, apareceu num Rolls-Royce e perguntou-me o que tinha que fazer. Disse-lhe que tinha que anunciar ao realizador que não havia mais dinheiro, e ele responde: "É o que eu passo os dias a fazer!" (risos).


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